• Tiago Zoia

A relatividade do tempo

Eu não vou fingir que sei do que Einstein estava falando com sua teoria. Mas sei o que é tempo. E sei o que significa relatividade. Portanto, os físicos que me perdoem se eu acabei pegando emprestado o nome de uma teoria para falar de algo totalmente diferente. Ora, sou da área de humanas, com todas as implicações semânticas dessa palavra. A área de exatas ultrapassa o que é ser simplesmente humano para mim. Tem que se ter algo de extra-humano ou divino para conseguir entender coisas como logaritmos, ou no caso, para entender o tempo como uma entidade geométrica unificada. Então nem me arrisco a tentar falar de física por aqui.



Sob o meu ponto de vista, relativo é aquilo que pode ser enxergado de forma diferente a depender do seu ângulo de visão. Nesse modo de pensar, o tempo se enquadra perfeitamente no conceito.

Sim, 10 minutos são 10 minutos em qualquer relógio. Mas não venha me dizer que 10 minutos adiantados têm o mesmo valor de 10 minutos de atraso.

O valor de um mês também é diferente para as pessoas. Para meu filho, que ainda é muito novo, um mês é boa parte de sua vida. Para mim, é apenas o tempo que preciso esperar para receber meu próximo salário.

Só que a relatividade do tempo vai muito além disso. O tempo assume velocidade diferente a depender do contexto de sua vida, pois passa rápido quando queremos que ele pare e se arrasta quando, por exemplo, falta uma hora para sairmos do trabalho na sexta-feira. Veja que ele é indisciplinado e indomável. Nunca age como queremos. Também é consumível, pois seja ele bem ou malgasto, nunca pode ser recuperado. Não é uma via de mão dupla. Ele só caminha para frente e não permite retoques nos momentos que já passaram.

Mas esses não são os únicos aspectos do tempo que me fascinam (para o bem e para o mal).

Gostaria que refletissem comigo sobre uma outra questão que também pode ser encarada como relativa. Sou apenas eu ou vocês também acham que, conforme envelhecemos, o tempo passa mais rápido? Que o tempo voa?

Se você se lembrou do jingle da Poupança Bamerindus agora, certamente já tem idade para achar que o tempo realmente voa. Sim, só as pessoas mais velhas sentem o tempo passar assim tão veloz.

Isso, lógico, é só meu ponto de vista. É empirismo. Não é uma teoria acabada como a do nosso amigo alemão despenteado. Mas a defendo dizendo que a gente quase nunca vê adolescentes e crianças reclamando da velocidade do tempo.

Se você acha que um ano passou sem você se dar conta, provavelmente você já terminou a faculdade e já trabalha em um emprego “para a vida toda”. É quase certo também que você já se casou ou, pelo menos, se convenceu que não nasceu para isso e vive convicto com sua vida de solteiro.

Bom, seja lá como sua vida está hoje, se você acha que o tempo passa rápido demais é porque já vive uma vida de inabalável rotina.

Há muito li um artigo sobre como nosso cérebro otimiza as informações que gravamos. Sim, temos uma capacidade absurda de absorver informações, mas nosso computador biológico otimiza suas gravações. Ele não vê necessidade de encher sua capacidade de armazenamento com informações repetidas. Isso não é fantástico? Certamente, mas tem um efeito deplorável na nossa noção de tempo.

Vou dar um exemplo. É muito provável que você se lembre da primeira vez que andou de avião. Tudo era novo. Você deve ter reparado em tudo, até nos mínimos detalhes. Talvez se lembre da decolagem e da aterrisagem e como se sentiu durante a experiência.

Agora, se essa não foi sua única viagem e teve dezenas de outras, duvido que se lembre de cada uma delas.

Por que deveria ser diferente? Por que seu cérebro se daria o trabalho de guardar informações exatamente iguais?


Talvez você até se lembre de aeroportos diferentes, mas não de uma viagem de avião em si, a não ser que algo de extraordinário tenha acontecido, como máscaras de oxigênio caindo no seu colo e você pedindo a extrema-unção ao padre que viaja ao seu lado.

Vamos ampliar um pouco o exemplo. Você se lembra do seu primeiro dia de emprego, certo? Mas lembra de todos os outros dias posteriores? Logicamente que não.

Vamos piorar ainda mais as coisas. Imagine que você acorda todo dia no mesmo horário. Come as mesmas coisas no café da manhã e utiliza o mesmo transporte para entrar no mesmo horário no mesmo serviço. Seu dia de trabalho é exatamente o mesmo de segunda à sexta, assim como suas noites, com jantares no mesmo sofá e assistindo aos mesmos programas de televisão.

Sim, eu sei, são muitos “mesmos” em um único parágrafo, mas a repetição é proposital. Se eles incomodam assim em um texto, deveriam incomodar mais ainda quando frequentes na sua vida.

Se você viver 52 semanas deste jeito de inabalável rotina, sinto dizer, mas, em termos de memória, você viveu um ano a menos. Esse ano não existiu na sua memória.

Portanto, não é verdade que o tempo está passando mais rápido. Apenas estamos deixando que ele passe sem novidades, porque acomodados em uma vida fácil de rotinas.

A mágica para mudarmos isso é tornarmos os dias memoráveis. Preste atenção nesta palavra.

Por que não tentar algo novo? Um jantar na mesa da sala como todos os outros será facilmente esquecido. Agora experimente forrar o chão da sala com um lençol velho e fingir com a família que estão em um piquenique dentro de casa. Não tem nada demais nisso, mas é certamente algo que sua memória vai gravar. Ou invente que, em determinado dia do mês, todos na casa comerão arroz e feijão, mas vestidos com trajes chiques e à luz de velas. Ou assistam televisão no quintal uma vez. Ou vá trabalhar de bicicleta em algum dia para variar. Pronto, tais eventos se tornaram memoráveis.

Nosso desafio talvez seja usar a grande capacidade de memória que trouxemos conosco. Devemos recheá-la com eventos únicos. Não devemos usá-la como um computador, poupando espaço.

Drauzio Varella diz em um dos seus livros que o corpo humano é melhor que uma máquina, pois esta se desgasta com a utilização. Nosso corpo, ao contrário, se aperfeiçoa com o uso e definha na inatividade.



Acredito que a “mesmice” é uma das formas de inatividade para o cérebro. Fuja da rotina ou do que é usual. Mude o caminho para o trabalho de vez em quando. Experimente estilos de músicas novos. Tente aprender um instrumento musical e se apresente em um festival de música. Estimule-se. Desafie-se. Não deixe que os seus dias sejam esquecidos ou, em palavras mais duras, descartados de sua experiência na terra. Saia com amigos e paquere. Se casados, por que não paquerar sua própria esposa ou marido? Visitem restaurantes novos, conheçam novos parques. Morem em novas casas. Visite mais os parentes e amigos. As possibilidades são infinitas para que os dias tenham existência eterna nas mentes. Perdoem-me a redundância, mas vivam uma vida bem vivida. Só assim o cansaço da velhice parecerá natural a você. Caso contrário, parecerá uma injustiça divina, pois nada foi feito para que você se sentisse dessa forma.

Se isso não foi possível hoje, pois nada digno de memórias aconteceu, então escrevam uma página de diário, mas não deixe que o seu dia se perca. Que seja apagado.

É isso. Espero sinceramente que meu texto tenha sido memorável para vocês. Escrevê-lo com certeza foi.


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