• Tiago Zoia

Ansiedade, meditação e escrita

Ansiedade! Se você tem pressa para terminar esse texto e o lê por “amostragem”, escolhendo apenas poucas palavras de cada linha para captar a ideia principal, certamente você é um ansioso como eu.

Não se sinta culpado. A palavra ansiedade ganhou uma conotação negativa nos últimos tempos, mas, acredite, o mundo precisa dos ansiosos assim como precisa dos criativos, dos revolucionários, dos centrados ou dos calmos e acomodados.

A mente do ansioso busca atalhos o tempo todo. Estamos sempre em busca de formas mais rápidas de resolver tarefas cotidianas. Seguimos tentando reinventar a roda, desejando saber de tudo um pouco e sem paciência para aquilo que leva tempo. Às vezes somos bem-sucedidos e aí mostramos nosso valor para a vida em sociedade. No entanto, no cotidiano, somos apenas pessoas que pensam incompletamente em diversos assuntos ao mesmo tempo. Quase sempre não chegamos a lugar nenhum, pois assistimos embasbacados nossos pensamentos e ficamos paralisados. Se eles tivessem cores, pareceriam um caleidoscópio que gira rápido demais. Muita cor é vista, mas pouca forma se distingue.


Certa vez li que o cérebro, de tão eficiente que é, tem um jeito de resolver problemas em segundo plano, funcionando quase como um computador. Toda vez que estamos em uma atividade que não demanda muito da gente, entramos no piloto automático e nossa mente nos leva até nossos problemas para que eles sejam resolvidos.

Enquanto lavamos a louça, que, convenhamos, não exige muito de nossa capacidade mental, nosso cérebro muitas vezes nos leva àquele problema insolúvel que nos tira o sono e não nos deixa ser feliz. A esperança dele é que o problema seja resolvido e nos deixe, enfim, em paz. É quase como um sistema de defesa de nossa mente.

Dirigir é outro exemplo de tarefa que pode ser automatizada pelo cérebro. Quem nunca se esqueceu de virar à direita porque se afogou em um mar de pensamentos?

Como essas, existem diversas outras atividades que são portas de entrada para que os problemas sequestrem nossa atenção. Correr, tomar banho e escovar os dentes são outros excelentes exemplos.

Bom, no meu caso esta atividade é estender roupas. Sim, essa tarefa sobra para mim aqui em casa, porque sou eu quem alcança o varal. Comecei a perceber que sempre ficava pra baixo ou mal humorado nestes dez ou quinze minutos. Até que me dei conta de que, de fato, minha mente sempre desconectava do que eu estava fazendo nessa hora, levando-me aos meus problemas. No final, a máquina de lavar já está vazia, mas o varal e a minha cabeça estão bem cheios.

Para mim, faz muito sentido aquele ditado que fala que “quem canta, os males espanta”. Quando nos concentramos em cantar ou tocar algum instrumento, nossa mente é tomada pela música. Não podemos relaxar a mente ou esqueceremos a letra. Mantemos, assim, os problemas distantes da gente. Eles não conseguem agarrar nossa atenção.

Quer outro ditado? “Cabeça vazia é morada do diabo”. Percebe como tudo isso faz sentido?

Mas para o ansioso a questão é mais séria. Para nós, a vinda de um problema à mente não assume apenas o caráter de preocupação ou raiva. Traz também uma descarga de adrenalina, que tem impactos físicos. Essa descarga prepara nosso corpo para uma situação de perigo e que exige resposta rápida, tal como se surgisse na nossa frente um assaltante armado, exigindo que entreguemos o telefone.

Há a adrenalina, mas não há assaltante, não há arma, não há perigo real. Tudo que há é um varal cheio de roupas e um turbilhão de pensamentos que sequestra a mente e estraga nosso dia.


Por muito tempo confundi essa descarga de adrenalina com crises de hipoglicemia. Sentia tremores e suores frios e recorria a chocolates e balas para me recompor. Mal sabia que era a ansiedade mostrando sua força.

Assim não dava para ficar e venho usando algumas ferramentas para controle.

A primeira delas é a meditação. Adianto, todavia, que ela sozinha não me curou. Medito mais ou menos regularmente desde o ano de 2014 e nem por isso deixei de ser ansioso. No entanto, não tenho dúvidas de que ela é uma das práticas que mais me engrandeceram.

A meditação tem milhares de modalidades. A oração e o recitar mantras são apenas duas delas. Particularmente, gosto de uma técnica chamada “atenção plena”. Ela é muito simples de ser explicada, mas extremamente difícil de ser executada. Tente e verá.

Basicamente, deve-se sentar e focar em algo com - veja só - atenção plena.

Gosto de usar a respiração como objeto do foco. É, aliás, a forma mais popular de todas. Sento, fecho os olhos e respiro. Tento contar cada inspiração e expiração. Quando chego até dez, recomeço. Simples assim. Não precisa de manual.

Entretanto, o que posso dizer a vocês é que isso é bem mais difícil do que parece. Minha contagem chega até dez uma ou duas vezes consecutivas. Depois, simplesmente esqueço-me de contar ou continuo contando mecanicamente e sem me dar conta que ultrapassei o limite há muito.

Mas tudo bem. É aí que começa mesmo o exercício. Nessas horas o que faço é identificar o que me distraiu. Tento não julgar o pensamento. Simplesmente identifico o tema e retomo a contagem.

Isso é um treino e tanto, posso garantir. Acabamos estendendo a prática para as outras atividades de rotina. Com a prática, toda vez que desligamos do que estamos fazendo, acabamos identificando mais rapidamente o devaneio. Com tempo e paciência, ficamos mais atentos aos pensamentos e acabamos dando menos espaço para que problemas nos atinjam.

Mas, como eu disse, meditação não é tudo. Ela me ajuda a identificar quando minhas atividades entram em segundo plano. Tenho uma reação mais rápida ao devaneio e consigo evitar o torpor energético dos problemas. A questão é que os problemas existem, continuarão a existir e são aparentemente insolúveis. Simplesmente fazem parte da vida e, portanto, seu cérebro sempre tentará levar seus pensamentos a eles.

Bom, aí entra outra lição que eu aprendi no Budismo que tem me ajudado muito.

Considere o pensamento como um cavalo selvagem que se tenta domar. Ele é mais forte que você e acaba te vencendo. Tente colocar uma corda curta no pescoço de um cavalo arisco e verá que ele a arrebentará e fugirá para longe. Talvez você nunca mais o alcance.

No entanto, se a estratégia for contrária, muito mais fácil será a domesticação. Se não reprimirmos este cavalo e deixarmos ele livre por um tempo, correndo e explorando ao máximo o terreno, logo ele se cansará e esgotará sua energia. Nessa hora, conseguimos atraí-lo para perto de nós. Conseguimos guiá-lo sem que seja arredio e violento. Ao final, estará ele domado e afeiçoado à gente.

Para os pensamentos a tática é bem semelhante. Se você for capaz de identificar um que seja recorrente e poderoso na sua mente, dê espaço a ele para que venha com toda a sua força. Dedique uma sessão de meditação para esse fim. Diga “okay, problema, você tem toda minha atenção. Não vou julgá-lo”.

Sabe o engraçado de tudo isso? Normalmente, esse problema não requer mais de um ou dois minutos de sua atenção. No final, ele fica enfraquecido. Quando não se sente reprimido, ele parece fraco e inofensivo. Tenderá a sumir.

O jeito que encontrei para dar esse espaço aos meus pensamentos é a escrita. Ela é meu segundo instrumento. Com ela dou vazão às minhas ideias. Posso criar personagens que têm vidas, aventuras, desejos e problemas parecidos aos meus. Esses personagens podem tomar vida própria e acabam achando sozinhos uma solução. Pronto, o problema fica resolvido para mim também.



Minhas ideias soltas colocadas num papel são desenvolvidas, organizadas e finalizadas. Ao final, a impressão é que aquele novelo de pensamentos que estão em minha mente, cujas pontas estão perdidas, começa a se desembaraçar. É como se aquele caleidoscópio maluco que eu descrevi no começo desse artigo parasse de girar e as cores passassem a formar desenhos nítidos. Uma vez formados, eles me abandonam. Quando eles vão embora, resta o silêncio, que chamo de verdadeira paz.

Bom, logicamente não estou curado da ansiedade. Mas também nem quero me curar. Ela é parte da minha personalidade e venho aprendendo a ser amigo dela. Mesmo porque ela também tem aspectos positivos. Nos momentos mais criativos da minha vida eu estou totalmente tomado por ela. Acontece que nessa hora costumo atribuir outro nome a esta amiga. Chamo-a de entusiasmo.

Perceba que a enxurrada de pensamentos não é necessariamente ruim. Apenas venho tentando não me afogar neles. Quero aprender a aproveitar a força dessa torrente, navegando mais rápida e controladamente.

Escrever vem sendo um instrumento poderosíssimo neste sentido. Recomendo a todos que usem a escrita como terapia. Se lhes falta coragem para a exposição de ideias em blogs e redes sociais, que a pratiquem em diários com cadeados ou senhas. Mas façam.

Escrever é como aquela brincadeira de ligar os pontos. O desenho está lá, mas ele só é visto quando os pontos estão conectados uns aos outros. Concatene suas ideias no papel. Dê ordem e acabamento a elas e verá que seu subconsciente sabe onde deve ir e como fazer para chegar lá. Tenha fé nisso.


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