• Tiago Zoia

Feng Shui para além da posição dos móveis

Você se lembra da minha postagem sobre karma quando disse que gosto de validar dogmas religiosos com padrões da natureza? É sobre o que eu vou dizer neste texto. Bom, para ser honesto, foi Lao-Tsé, o fundador do Taoismo, que disse, mas como ele morreu há mais de dois mil e quinhentos anos, talvez não se importe muito que eu pegue emprestado o seu pensamento para escrever.

Na tradição chinesa, tudo é energia. O que faria um especialista em Feng Shui ao visitar sua casa é, basicamente, identificar padrões energéticos mal distribuídos (ou obstruídos), dando lugar e vazão para que haja uma corrente que possa auxiliar os habitantes. Ele identificaria o padrão ch’i, que é como os chineses se referem a essa vibração energética, e o aplicaria em benefício das pessoas, para que a energia das coisas se harmonize positivamente com a sua. Assim sendo feito, você sentiria mais disposição, adoeceria menos, seria mais produtivo e se entenderia melhor com seus familiares.


Acredito que isso tem mesmo um fundo de verdade. É inegável que alguns cômodos da casa são mais atrativos e outros nunca são ocupados. Às vezes, um apartamento de duzentos metros quadrados fica reduzido a sessenta, porque os moradores não têm por “hábito” ficar em alguns lugares.

O posicionamento dos móveis, as cores e a forma dos objetos influenciariam na agradabilidade do ambiente. Também seriam determinantes para a sua qualidade de vida.

Isso é bastante lógico para mim, pois, às vezes, basta mudar a posição do sofá para que ele fique mais convidativo.

Mas não estou aqui para falar de design de interiores e acho que também não era a intenção de Lao-Tsé, embora particularmente ache que ele seria um excelente arquiteto.

Feng, em uma tradução literal, significa vento. Shui, por sua vez, significa água. Mas, logicamente, as duas palavras combinadas querem dizer muito mais que isso para os chineses. Pense na fluidez de ambos. Imagine um rio e também um vendaval. Eles são forças da natureza e é quase impossível domá-las. É muito mais inteligente se aproveitar dessas forças do que se opor a elas.

Bom, é isso que os pássaros e peixes fazem, não é mesmo? Como os taoistas dizem, os pássaros montam o vento e os peixes são levados pela água. Apenas em raríssimos momentos você verá esses animais se opondo à força da natureza.

Força da natureza! Será que a usamos? Bom, ok, criamos hidrelétricas e usinas eólicas, mas o vento e a água são apenas analogias simplificadas para uma filosofia muito mais profunda. O que lhe pergunto é: você usa de fato as forças que a natureza impõe à sua vida ou luta contra elas por capricho, sonhos pessoais ou desconhecimento?

Veja, por exemplo, o crescimento da grama. No local propício, ela simplesmente cresce naturalmente. Sem esforço e artifícios. Aliás, se você tem um gramado na frente da sua casa você sabe quão difícil é fazer com que ele pare de crescer. Você o corta em um dia e, no próximo, parece que ele cresceu como se tomasse anabolizantes. Em pouco tempo ele parecerá um matagal e você um vizinho desleixado.

No entanto, veja você quantos instrumentos e artifícios são necessários para fazer a grama crescer em um local desértico ou em um local sem luz natural. Ela crescerá com custo, mas, no menor descuido, secará e morrerá.

Observe esse padrão e tente identificá-lo na sua vida. Você se comporta como os peixes e as aves? Você pega carona na vida ou tenta impor a ela a sua vontade? Veja que sua jornada tem um ritmo e direção próprios. Você os aceita ou tenta copiar os dos outros?

Talvez o que tenhamos que fazer é ficar de olhos abertos para o que a vida nos mostra. Em outras palavras, devemos usar a energia que nos rodeia em nosso favor. Para o Taoismo, alinhar-se à energia que flui (pense no rio e no vendaval) traz prosperidade, boa saúde, amor e paz. Do contrário, esforços demais são despendidos e pouco se alcança.

Você pode tentar domar a vida e impor a sua intenção a ela, mas seu esforço será enorme e os resultados virão lenta e custosamente. Às vezes, nem virão. Serão como a grama que cresce com artifícios químicos e físicos. Sua existência não é natural e poderá se esvair no menor descuido.

Meu conselho é que aceite o que a vida projetou a você. Entre em uma corrente marinha de águas quentes, como as tartarugas de Procurando Nemo, e talvez você vá até à Austrália com muito pouco esforço.

No Taoismo existe o conceito de wu wei, que traduzido seria “agir pelo não agir". Isso é um conceito profundo e difícil de entender. Não pode ser confundido com o “esperar sentado” que as coisas aconteçam ou com uma licença para não se trabalhar com afinco.

A questão é mais sutil que isso. Você deve agir, mas a energia da ação deve se retroalimentar e se fortalecer naturalmente. Não há esforço desmedido, mas também não há inércia. Ora, veja que a grama crescendo é uma ação.

Aliás, inércia é um bom modo de enxergar o ensinamento. Rolar por aí uma roda grande e de ferro exige um esforço maior para começar, mas, depois que ela se movimenta e desliza por aí, cada vez menos esforço é necessário para mantê-la em movimento.

Pense em tudo o que você faz na sua vida e o compare com essa roda. Se estiver cada vez mais simples movê-la, parabéns. Você está usando a energia em seu favor. Mas a vida tem muitas nuances. Em que aspectos dela parecem que esta roda está sempre parada? Que objetivos parecem estar sendo empurrados ladeira acima?

Eu, recentemente, descobri uma destas ladeiras na minha vida. Descobri um esforço da minha parte que não tinha um empurrãozinho da natureza. Aliás, às vezes, parecia que era eu, Tiago, contra ela. Logicamente, não havia equivalência de forças.

Há alguns meses atrás joguei a toalha. Não pude vencer minha “inimiga” e resolvi me juntar a ela. Mesmo porque em algum momento não teria mais forças para empurrar essa roda para o topo da ladeira e ela acabaria voltando e passando por cima de mim.

Se você está enxergando meu discurso como derrotista, sinto muito, mas você não está entendendo o ensinamento do nosso amigo chinês. Não é que não somos capazes. Pelo contrário, podemos tudo com muito esforço e foco. Só que, às vezes, tentar transformar uma pedra pobre em ouro não é o mais inteligente a se fazer. Trata-se da filosofia da intelectual Elsa de Arendelle. Aplique um pouco mais do let it go na sua vida e liberte-se para a felicidade.

Ao jogar a minha toalha (e os mais próximos de mim sabem do que eu estou falando), troquei uma vitória parcial e artificial por vitórias (sim, plural) fáceis e naturais. E quer saber? A vida sabe melhor que a gente a direção certa a tomar. A felicidade não é fabricada ou idealizada. Ela apenas é. Permita que ela exista na sua vida.

Quando levados pela energia da natureza, a gente ganha velocidade e as coisas acontecem como se houvesse um alinhamento dos astros. Posso dizer que, particularmente, venho sentindo a bem-aventurança e prosperidade (que não é necessariamente monetária) como uma mágica inexplicável. A sensação é que a vida abre caminho. A energia flui e vamos junto com ela. Garanto que coisas inimagináveis acontecem.

Então, confiemos na natureza. Pule no rio e deixe a correnteza te levar.




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