• Tiago Zoia

O amor incondicional dos pais

Primeiramente, vamos estabelecer aqui que estamos falando do mundo do dever-ser. Um pai amar o filho deveria ser uma condição inata para todas as pessoas. Infelizmente, não é. Trabalho em uma Vara da Infância e Juventude no Tribunal de Justiça daqui de São Paulo e vejo aos montes casos de abandono. Se a maternidade e paternidade são um grito da natureza, infelizmente não são todos que o escutam.

Mas os casos que vejo no serviço são a minoria. A regra são os pais amarem os filhos e é sobre essa regra e a profundidade desse amor que quero falar aqui.



Eu tive um grande chefe. O nome dele é Celso Lima Júnior e trabalhei em seu escritório de advocacia há muito tempo atrás e lá tive muito mais que ensinamentos jurídicos. Até hoje alguns dos ensinamentos de formação de caráter ecoam em mim.

Há muito tempo que não o via e, recentemente, almoçamos juntos para colocar o papo em dia. Era a primeira vez que ele via o ex-estagiário como aprendiz em um novo posto: o de pai. Durante o almoço ele falou algo que, de fato, me fez entender o significado de quando dizem que o amor de pais e mães é incondicional.

Disse ele que o amor que sente pelos filhos não exige reciprocidade.

Quer saber a verdade? Acho que ele está certíssimo.

Sejamos francos: todos carregam na personalidade orgulho e vaidade. Uns o têm em menor grau, mas ninguém é totalmente desprovido de amor próprio. Quando estamos diante de uma situação de desamor, tendemos a nos afastar da pessoa que não nos retribui o sentimento (ainda que os menos orgulhosos levem mais tempo para isso). O amor que sentíamos pela pessoa vai desvanecendo e, ao fim, libertamo-nos dessa situação de desigualdade. A tendência da natureza é o equilíbrio e, com o tempo, essa situação dissonante acaba e passamos a ter sentimentos recíprocos. Às vezes, superada a raiva (que se apresenta algumas vezes), nutrimos apenas um sentimento de carinho à outra pessoa, tal como ela sente por nós. O tempo cura tudo, inclusive isso.

Todavia, o amor por um filho é nitidamente diferente. Quando é legítimo, ele existirá ainda que seu filho não o ame. A questão vai além do “te amarei independentemente do que aconteça”. A incondicionalidade que digo aqui mais se aproxima do “te amarei ainda que você não me ame; ainda que eu seja desprezível para você”.

Acho que é disse que meu ex-chefe estava falando e eu posso entendê-lo. Meu amor pelo Eduardo tem existência autônoma; meu filho não precisa fazer nada para merecê-lo. Ainda que ele tenha uma existência complicada; ainda que não se torne uma boa pessoa; mesmo que me machuque muito e nunca goste de mim, sempre o amarei na mesma intensidade.

Isso é a incondicionalidade do amor de um pai.


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