• Tiago Zoia

Sitiados pela informação

Atualizado: há 2 dias

Sim, eu sei que há antagonismo no título. A informação deveria libertar, não enclausurar. Bom, isso nunca foi uma verdade absoluta, porque sempre houve alarmismo desmedido e, às vezes, sensacionalismo manipulador. Isso ainda acontece nos dias de hoje, mas a situação é pior, pois, com a internet, veio também o direcionamento da informação.

Provavelmente, vocês já pesquisaram viagens ou carros na internet, não é mesmo? Perceberam que, “magicamente”, começam a aparecer propagandas de agências de viagem e veículos na lateral direita do seu monitor? Bom, isso não é novidade para ninguém. A novidade - pelo menos para mim foi novidade - talvez seja que o mesmo mecanismo de algoritmos que direciona propagandas também indica resultados de buscas para você. Exclusivamente para você.



Diversas pesquisas já foram feitas sobre o assunto. Em uma delas, três pessoas com perfis diferentes jogaram o nome de uma praça egípcia em um site de busca em seus celulares. Para um deles, os resultados estavam ligados às opções turísticas do local; para outro, apontava-se uma revolução política cujo epicentro foi a praça; para o outro, a pesquisa resultou em apontamos sobre a intervenção ocidental nas políticas internas egípcias. Perceba como, vivendo em tempos em que se teria acesso a todo um bolo de informação, o temos apenas fatiado.

Isso, em termos de navegabilidade na rede, é ótimo, pois nos dá o conforto de termos experiências totalmente pessoais e menos genéricas. Mas em termos de crescimento intelectual há um prejuízo lastimável. Afundamo-nos cada vez mais nas nossas próprias visões e não temos o contato com o contra-argumento. É quase como um debate sem direito de réplica.

Todos nós temos posições políticas, morais e religiosas. Com as pesquisas na internet que fazemos, somos inundados com mais informações que coincidem com nossas posições. Somos cada vez mais informados e especializados em assuntos que nos convêm, reforçando unilateralmente um ponto de vista pré-existente. Há um evidente distanciamento do que nos é contrário. Esse distanciamento torna-se desconhecimento do ponto de vista alheio, que, provavelmente, também é muito bom. Sim, há bons argumentos para qualquer posição que você tome.

Aos nossos olhos, nossas opiniões são imbatíveis e tendemos a achar um imbecil quem pensa diversamente. Dizemos coisas como “não entendo como uma pessoa tão estudada pode acreditar naquilo”. No final, acabamos vivendo em uma cela virtual coabitando com pessoas que pensam, senão exatamente, de maneira muito próxima de nossas convicções.

Esse “país” virtual tem fronteiras muito mais concretas do que imaginamos. Hoje, vivemos um mundo de relacionamentos à distância fortalecidos e contatos físicos esporádicos. Os assuntos do cotidiano são discutidos em aplicativos de mensagens e as fotos não são mais mostradas em álbuns de família a visitantes que sentam no nosso sofá da sala, mas sim em redes sociais. O home-office vem se tornando regra e os chats e "lives" vêm substituindo a cerveja no bar. Fotos de garrafas na rede social substituem os brindes de amigos.

Veja, por exemplo, que escrevi esse texto no Metrô e não há ninguém perto de mim que não esteja com os olhos no celular. A maioria está postando intimidades em redes sociais, tornando-se próxima de pessoas que não conhecem fisicamente. Usam de hashtags para filtrarem interesses nas pesquisas e conhecem-se pela proximidade de pensamentos e ideias, tornando nossa rede de contatos um jogo de espelhos de cabeleireiro, onde um reflete a imagem do outro.



Somos sete bilhões e meio de habitantes em um mundo misturado de humanos de todo tipo, mas dividido em continentes virtuais de fundamentalismo religioso, político e moral.

Fundamentalismo traz intolerância. Isso não é breaking news. Mas como todo fundamentalista que se preze, não enxergamos nosso próprio fanatismo, o que nos deixa cego e violento.

Mas quer saber a verdade? Não escrevo aqui com um propósito político ou religioso. Para ser franco e direto, não estou nem aí para quem você vota ou reza. O que incomoda é ver amizades serem destruídas e relações familiares abaladas por uma defesa ferrenha de pontos de vista. Quando foi que passamos a dar mais importância ao “como pensamos”, que é fluido e modificável no tempo, do que aos relacionamentos, que historicamente são mais perenes?

Aqui no Brasil, por exemplo, todo mundo esteve em ou presenciou de perto alguma briga familiar por causa da última eleição presidencial. Quantos de nós não saímos de grupos de WhatsApp ou bloqueamos pessoas simplesmente porque não aguentamos ouvir o que elas têm a dizer? Veja o absurdo disso, pois a gente “defende” a democracia calando (pelo menos para nós mesmos) quem pensa diversamente. Se isso também não é um tipo de censura, não sei então qual é o nome que podemos dar.

Não estou defendendo os chatos. Esses sempre existiram e serão mesmo ignorados por sua insistência e pouca diversidade de temas para conversar. Na verdade, estou falando de pessoas comuns, que agora tomaram posições irredutíveis e explodem no menor sinal de um pensamento diverso surgindo no horizonte. Se isso não é intolerância, não sei como chamar.

Como eu disse, nossas posições ideológicas ficaram mais fortes que relações familiares e amizades que nasceram ainda na infância. Brigamos com quem amamos simplesmente porque o achamos “burro” por não pensar como a gente. Se isso não é fundamentalismo, não sei como chamar.

Eu, particularmente, tento não me envolver em debates políticos. Quando o faço, tento me limitar a ouvir ou mediar para que uma discussão não se torne um racha. Nem sempre consegui ficar isento, mas venho me esforçando muito para isso. Mesmo porque não admito ser manipulado. Sim, manipulado. Leiam a respeito de como, por exemplo, as disputas políticas são travadas hoje em dia. De Barack Obama, Donald Trump, intervenções russas em eleições estrangeiras, Brexit às eleições latinas, testam-se os discursos políticos nas redes sociais. Cada frase dita é antes experimentada e verificada em termos de repercussão. Se o resultado convém ao candidato, ela é dita. Caso contrário, é silenciada e atribuída a pessoas não ligadas à personagem política. A propaganda eleitoral agora é colocada sem “bandeiras” nas telas do seu celular e, se você for infectado por alguma dessas frases testadas (e que não são necessariamente o pensamento do candidato), virará um soldado “jihadista”, travando verdadeiras batalhas em defesa do pensamento.

Antes, interrompia-se a novela para o horário político e todos sabiam que o que seria dito ali era calculado e que não podíamos levar tão a sério assim. Afinal, políticos mentem. Agora, vemos as mesmas ideias em compartilhamentos dos amigos na rede social, o que torna a mensagem muito mais fidedigna. A mensagem política nos atinge na intimidade e diminue nossas chances de defesa.

A minha proposta não é que vivamos na desinformação. A pesquisa é essencial para o crescimento, seja em termos morais, políticos ou religiosos. Saiba apenas que, por nutrir uma ideia, você não está proibido de bem conviver com pessoas que pensam diversamente.

Preze a boa convivência, não a inimizade. Tenha paciência e tente não se achar mais inteligente do que aquele que pensa diferente de você. Provavelmente, você não é. Apenas pensa de maneira diversa.

Na medida do possível, tente abster-se de converter as pessoas ao seu redor, pois dificilmente elas te darão atenção. A opinião delas não é formada em almoços familiares ou em mesas de bar. Não torne desgastantes os momentos de lazer, tão raros no caos de compromissos que temos. Não seja um fanático e fundamentalista, que deixa de enxergar os outros como iguais.

Em outras palavras, não vire um homem-bomba ideológico, que está disposto a explodir a sua própria vida social e a vida social dos outros apenas para disseminar sua mensagem, que, aliás, nem é tão sua assim.


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