• Tiago Zoia

Tudo fica ridículo com o tempo

Ouvi essa frase acima em um programa de televisão quando estava entrando na adolescência. Desde então, eu me debato com ela quando me lembro de alguma coisa do passado.

Quem é que não tem vergonha dele?

Eu posso enumerar diversas situações que hoje me envergonham. Elas, às vezes, nem me embaraçaram na época, mas, passados anos, tenho até vergonha de lembrar-me delas.

Certa vez, por exemplo, tentei impressionar uma menina do ginásio com meu gosto “apurado” para rock'n roll. Só que a época não era como a de hoje, em que se escolhe o que quer ouvir no Spotify e aperta-se o play. Os CDs eram caros. Na maioria das vezes, ouvíamos ao rádio por muito tempo e aguardávamos que ele tocasse aquela música que desejávamos ouvir.



Bom, estava eu em casa quando a música tocou. Aumentei o som no último volume e liguei para aquela menina. Queria que ela escutasse a música “ao fundo”. Acontece que o som não estava “ao fundo”. De tão alto que estava o rádio, eu mal escutava o que ela dizia. Ela também não me escutava. Tudo que ouvia era Kurt Cobain do Nirvana gritando no telefone, deixando minha voz, aos berros também, inaudível.

Consegue pensar em situação mais embaraçosa do que essa? Bom, eu sim. Em várias outras, aliás, pois meu passado está recheado delas. Mas ainda bem. Isso é um sinal de que as coisas estão caminhando na direção certa.

Quando nos envergonhamos do passado há um claro sinal de que estamos amadurecendo. Se você consegue olhar para ele e enxergar que poderia ter agido melhor em situações passadas, congratule-se, pois você está aprendendo com o tempo.



Parabenize-se de verdade, porque isso não acontece com todo mundo. Infelizmente, existem aqueles para quem o passado é glorioso e o orgulho dos tempos remotos o faz se encher de júbilo. Mas veja que tais momentos ocorreram quando as pessoas que os cercavam também eram mais imaturas. Tente replicar diálogos ou cenas de sua adolescência ao momento atual e veja o que acontece. Use as mesmas gírias e as mesmas roupas. Use seu velho jeito de andar e se comportar e você sentirá o deslocamento social.

Particularmente, lamento quando adultos tentam viver como adolescentes. Não é natural e, às vezes, beira ao ridículo.

Veja, não estou falando de juventude de espírito, que é uma meta para todos nós. Falo de comportamentos juvenis na vida adulta ou, até mesmo, na velhice.

Nestes casos, normalmente, fica evidenciada uma adolescência triste ou não vivida. Pode também demonstrar uma prisão ao passado ou uma dificuldade para amadurecer (uma síndrome de Peter Pan). Seja qual for o motivo, não quero isso pra mim ou para meu filho.

Desejo a ele que viva sua adolescência e juventude com plenitude, fazendo tudo aquilo que eu, agora pai, acho ridículo. Desejo a ele que olhe para o passado e ria, exatamente como acontece comigo. Que olhe fotos e se envergonhe de cortes de cabelo. Que lembre encabulado de eventos e de coisas impróprias que disse. Esse será o melhor sinal de que terei criado um filho que amadurece com o passar dos dias e que fica cada vez mais pronto para o que a vida lhe trará.


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