• Tiago Zoia

Uma resenha sobre o filme Forrest Gump

Você consegue enxergar todas as implicações desse clássico ou apenas o vê como um filme engraçadinho em que uma pessoa tida por intelectualmente desprivilegiada aparece por acidente em vários episódios da história recente dos Estados Unidos?



Eu vejo esse filme de forma mais profunda e, não à toa, é um dos meus prediletos. Não canso de assisti-lo.

Em primeiro plano, o que me chama a atenção é o fato de ser uma crítica velada ao que chamamos sonhos e sucesso.

O filme se inicia descrevendo Forrest Gump como um menino de pouca inteligência. Ele não tem, ao menos, a pontuação mínima de Q.I. para entrar nas escolas públicas americanas. Só conseguiu estudo regular porque a mãe, uma desquitada não admitida, usa métodos pouco ortodoxos para convencer o diretor a matriculá-lo na escola.

Além de não ser “suficientemente” inteligente, Forrest ainda tem uma anomalia física, que entorta a sua coluna a ponto de dificultar que ande.

Veja que ele é o oposto da pessoa símbolo de sucesso para os norte-americanos (e também para a sociedade ocidental em geral). Mas, de certa forma, é excelente em tudo que se propõe a fazer. Percebe a crítica?

Não sei se era a intenção do filme, mas esse fato é uma lição em si.

Forrest é um corredor de longa distância, tem diploma universitário, é um astro do futebol americano, é um herói de guerra, ganhou notoriedade como jogador de tênis de mesa e também consegue ficar milionário. Além do mais, conhece alguns dos Presidentes dos EUA por suas conquistas.

Logicamente, a estória não é verídica, mas o que o filme está tentando nos dizer? Por que uma pessoa que, aos olhos da sociedade, nasceu para ser fracassada e dependente dos outros consegue alcançar o sucesso em tudo que faz?

Talvez seja porque temos o que ele não tem: “inteligência” (imensas aspas aqui).

Por termos essa capacidade de refletir, será que não acabamos complicando demais as coisas? Enxergamos significados ocultos e predestinações inexistentes em tudo. Justificamos cada coisa que nos acontece como prêmio ou castigo. Somos egocêntricos, pois achamos que tudo tem a ver com a gente.

Forrest não tinha “inteligência”. Mas vejamos quão inteligente são duas pessoas à sua volta.

Jenny (sua amada Jenny) vive uma vida confusa. Tenta se achar durante o filme inteiro e tudo o que fez foi se perder ainda mais. Sim, ela teve uma infância triste, mas deixou que o passado dominasse sua vida inteira.

O Tenente Dan era alguém bem resolvido, até que perde as duas pernas na Guerra do Vietnã. É neste momento que ele fica revoltado com a vida, pois se julgava predestinado a morrer como um herói de guerra (tradição na família), não como um inválido. Perceba que foi a expectativa do futuro que guiou sua vida e a frustração de não ter concretizado seus anseios que o levou à depressão.

Será que não temos algo de Jenny ou do Tenente Dan? Preenchemos nosso presente remoendo o passado e desejando o futuro. É como se vivêssemos em um dia ensolarado, mas nunca olhássemos para o sol ou para o céu azul. Olhamos para baixo, para a nossa sombra, que ora está à nossa frente, ora está atrás de nós. Assumimos que aquela marca escura que nos acompanha na calçada (que é uma ausência de luz) nos define e ignoramos o brilho que nos circunda.

Sim, sempre olhamos para o passado e para o futuro. Ambos não existem fisicamente. Estão apenas na nossa memória ou nos nossos desejos e medos. O passado é inativo e não pode mais nos fazer mal. O futuro é uma incógnita e não merece que apostemos nele todas as nossas fichas. Então, não deveríamos ser mais como Forrest e viver o presente?

Quando ele tem vontade de correr, veja só, ele corre. Quando quis parar de correr, ele parou. Quando amou alguém, ele simplesmente amou. Sem esperar ser correspondido. Sem vaidades. Sem pressão. Sem justificativas para ninguém. Ele apenas vivia o momento buscando não fazer mal aos outros. O idiota do filme, no fim, pode ser o mais esclarecido de todos.



Mas discordo que Forrest seja o idiota. Como ele mesmo se defende, “idiota é quem faz idiotices”. Bom, para fazermos idiotices não precisamos ser desprovidos de inteligência; basta que sejamos pessoas.

Como humanos, tentamos dar explicações para tudo. Mesmo para o inexplicável, como a vida e a morte. Tentamos deixar inteligível para nós o que é incompreensível.

Entender de matérias acadêmicas avançadas está além das possibilidades de Forrest Gump. Entender sobre o ciclo da vida está além das nossas. Não somos suficientemente esclarecidos para entender a inteligência suprema que nos guia. Mas não conseguimos ficar em paz com isso. Por que não aceitamos o incerto e apenas vivemos como nosso protagonista faz?

Aliás, chegamos aqui na lição mais fascinante do filme. O Tenente Dan defende que todos nós temos um destino que deve ser cumprido. A mãe de Forrest, de seu lado, declara que a vida tem uma série de eventos aleatórios e que a vivemos como uma pena flutuando no vento.

Forrest Gump faz melhor que os dois. Em um dos poucos momentos do filme em que ele dá sua própria opinião, defende que ambos têm razão. Na opinião dele, coexistem o destino do Tenente Dan e a aleatoriedade defendida pela mãe.

Concordo com Forrest Gump. Chame-me de idiota se quiser, mas, como ele, acredito que há eventos na nossa vida que estão escritos em pedra. São marcos bem traçados que necessariamente atravessamos, a não ser que tomemos rumos drásticos e inesperados. Mas a vida não é feita só deles, pois, caso fosse, nossa existência não faria o menor sentido. O poder da escolha e da evolução são as mágicas da nossa vida. Somos autônomos, e não fantoches, mas isso não nos deixa menos divinos.

O que seria da nossa jornada se fosse um simples Autorama, com carrinhos andando em velocidades desiguais pelo mesmo caminho e sendo controlados por alguém de fora da pista?



Não, acho que a vida não é assim. O que faz a vida ser maravilhosa é a possibilidade de sairmos dos trilhos e, com esforço pessoal, voltarmos a eles.

Destino e aleatoriedade: paradoxos da vida que eu não consigo entender. Mas, como Forrest Gump, não perderei minha existência tentando compreender o ininteligível. Vou tentar apenas vivê-la, abrindo os braços para o que o vento me traz e para aquilo que “estava escrito nas estrelas”.

Quem assistiu ao filme deve se lembrar do começo e do final dele. Uma pena plana no ar e pousa no tênis sujo de nosso sábio mal compreendido. Ele a recolhe e a guarda em um livro. Essa pena fica lá esquecida e só volta a planar no final do filme, quando Forrest Gump está acompanhando o filho que acabou de pegar o ônibus da escola em seu primeiro dia de aula.

Essa pena planou por aí, mas surge em dois destinos bem marcados do filme. Ela aponta o dia em que ele soube que era pai e o dia em que abre os braços para confiar que seu filho sai para o mundo, conhecendo novas pessoas que aparecerão em seu caminho. Em outras palavras, no dia em que o pequeno garoto também planará por aí. E Forrest confia. Nós também devemos confiar no que a vida nos trará, mesmo que “ela seja como uma caixa de chocolates, pois nunca sabemos o que vamos encontrar”.

Planemos por aí e tentemos identificar o que é o mero soprar aleatório do vento e o que são os destinos em que necessariamente faremos aterrisagens.

Tenham um bom voo. Tenham uma boa vida, sem tentar entendê-la ou justificá-la. Apenas exista e viva. Morda o próximo chocolate da caixa e descubra o recheio.


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