• Tiago Zoia

Você já tentou ouvir o que uma criança tem a dizer?

Não, eu não vou fingir que sou diferente de você e escuto o que meu filho fala. Afinal, ele ainda mal diz algumas palavras. Talvez no futuro eu também seja um pai “normal” que mal escuta seu filho, embora pretenda sinceramente não ser.

Não, não tenho gabarito para falar como pai. Acabei de entrar nessa “faculdade” e ainda estou nas disciplinas básicas. Vou tratar a questão por outro ângulo: o da criança. Nessa “faculdade” eu já me formei. Como você, já atravessei a infância e a adolescência. Portanto, temos competência para tratar do assunto.

Sempre fui uma criança que gostava de adultos. Sempre estive no meio deles nas festas e confraternizações. Eu realmente gostaria de ser notado e considerado como igual. Tentava inutilmente fazê-los rir das minhas piadas e fingia entender a graça nas deles.

Fracasso total. Nunca fui levado a sério. Os adultos gostavam de ouvir de mim apenas temas da infância. Davam ouvidos apenas às minhas respostas sobre como eu estava indo na escola ou se eu gostava de futebol e de videogame. Coisas desse tipo. Mas quando o assunto era de seus mundos - da vida de gente grande - ouviam o que eu tinha a dizer sem um mínimo de atenção. Balançavam a cabeça em concordância à minha opinião, mas, às vezes, nem se davam ao trabalho de me olhar nos olhos. Nem processavam as palavras que eu dizia. Muitas vezes, as pessoas ouviam catatônicas minhas ideias e estórias, viajando mentalmente em uma terra distante.

Vocês acham mesmo que as crianças não notam essa desatenção? Bom, eu me lembro de notar.



Mas me lembro também de um dia único e verdadeiramente marcante. Foi a primeira vez que eu fui realmente ouvido pela minha ideia em um assunto tipicamente de adulto. Minha sugestão foi realmente escutada, digerida e, ao final, adotada. Eu tinha onze anos e esse marco foi um presente do “Seu” Osvaldo, meu avô.

Ele era um faz-tudo. Consertava tudo em casa. Certa vez, queria fazer um suporte de madeira ao canto da pia da cozinha para apoiar uma cafeteira elétrica. Pediu minha ajuda e a teve sem qualquer entusiasmo de minha parte. Afinal, ajudar adultos se resumia a pegar ferramentas que estavam longe das mãos deles.

Lembro-me, no entanto, que meu avô vinha enfrentando problemas para definir como montaria aquela mesa de canto, que, por não ter pernas em número par, custava a se equilibrar. Foi quando eu soltei despretensiosamente uma sugestão. Disse algo do tipo, “Vô, porque a gente não faz assim, olha?” e desenhei minha ideia.

Eu já não me lembro de que sugestão era essa ou de como a mesa ficou. Mal me lembro da cozinha, para ser sincero. Mas me recordo de como ele de fato processou o que eu disse. No final, a mesa foi construída do meu jeito e virou um troféu para mim. E também uma lição.

Meu avô era um homem sério e pouco divertido. Mas a lição que ele me deixou é de que lidar com criança não é só fazer palhaçadas ou educá-la. É realmente gostar de sua companhia e, principalmente, ouvi-la.

Como eu disse, sou iniciante na “faculdade” de ser pai, mas o que posso garantir é que, quando meu filho tiver ideias e quiser ser ouvido, me esforçarei para receber suas sugestões sem o preconceito e arrogância dos adultos. A criatividade e autoestima de uma criança, no meu humilde ponto de vista, podem ser aniquiladas ainda na infância. Ou estimuladas.

Talvez a diferença daquele adulto que sabe colocar sua opinião em reuniões profissionais ou daquele que se acanha e esconde suas ideias com medo de parecer ridículo tenha origem justamente no relacionamento que teve com adultos que o cercaram na infância.

Ao ouvir e incentivar boas ideias de filhos e netos, acaba-se por preparar terreno fértil em suas mentes. Terreno esse em que florescerá a confiança na própria opinião. Portanto, lance a semente no solo e dê espaço para que haja o florescimento da criatividade e sucesso das crianças. Seja um bom adulto.


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